
Crédito, Exeter City Football Club/João da Mata/BBC News Brasil
- Author, André Biernath
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
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Faltavam 10 minutos para o início do jogo entre Exeter City e Bolton Wanderers válido pela League One, o equivalente à terceira divisão do campeonato inglês.
Enquanto os jogadores se aqueciam no gramado do estádio St. James Park, localizado na cidade de Exeter, os alto-falantes do estádio tocavam Mas Que Nada, na versão de Sérgio Mendes, e Ai, Se Eu Te Pego, na voz de Michel Teló.
O locutor da partida, realizada num sábado, 4 de janeiro de 2025, começou a anunciar a escalação do time da casa — e disse todos os números das camisas dos jogadores titulares do Exeter City em português.
Nos alambrados que separam campo e arquibancada, era possível ver algumas bandeiras do Brasil e outras do Fluminense.
O mascote do time, um leão, vestia uma camisa verde e amarela, que também estampava a bandeira brasileira nas costas.
Muitos torcedores usavam uma camiseta verde, branca e grená — as cores do Fluminense.
Outros se protegiam do frio de 3 °C com um cachecol que misturava as cores vermelho e preto do Exeter com o verde e amarelo brasileiros.
Na beira do gramado, uma pequena banda fazia batuques e emulava os ritmos do samba.

Crédito, João da Mata/BBC News Brasil

Crédito, João da Mata/BBC News Brasil
Todos esses elementos podem até parecer fora de lugar nesta cidade de 120 mil habitantes, que fica no sudoeste da Inglaterra e é a capital do condado de Devon.
Mas eles são frutos de um relacionamento que perdura 111 anos, do qual o clube britânico tem grande orgulho — e reconhece como uma das maiores conquistas de sua história centenária.
O Exeter City foi o primeiro time a enfrentar uma seleção brasileira.
O jogo, que aconteceu em 1914 no Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, marcou o início de uma trajetória que culminou em cinco Copas do Mundo e incontáveis craques para nosso país.
Mas essa história não se limitou às primeiras décadas do século 20.
O episódio inusitado e pouco conhecido foi um pontapé para uma relação de amizade, que ganhou outros capítulos em anos recentes — e promete novos frutos relacionados ao enfrentamento das mudanças climáticas num futuro próximo.
A BBC News Brasil acompanhou a partida, que celebrou esse vínculo e conversou com alguns personagens que ajudam a entender como esse relacionamento começou, se manteve ao longo dos anos e é cultivado até os dias de hoje.

Crédito, João da Mata/BBC News Brasil

Crédito, João da Mata/BBC News Brasil
Os primeiros passos dessa história
A relação entre Exeter e Brasil surgiu a partir de um acaso.
Inicialmente, a Associação de Futebol da Inglaterra havia convidado outros clubes, como o Tottenham Hotspur, de Londres, para fazer uma excursão pela América do Sul, com o objetivo de promover o esporte nesse canto do mundo.
Mas, por algum motivo que não ficou registrado na História, esses times rejeitaram a proposta.
O convite então caiu no colo do Exeter City F.C., um clube que havia sido fundado em 1901, participava de uma liga do sul da Inglaterra e havia ganhado notoriedade nacional ao dificultar um jogo contra o poderoso Aston Villa no início de 1914.
O clube topou a empreitada e zarpou com o navio Andes, que pertencia ao serviço de correio britânico, rumo ao Hemisfério Sul.
Os primeiros registros da passagem do Exeter City pela região aparecem na edição de 9 de junho de 1914 do jornal carioca Correio da Manhã, que noticiou a breve parada da delegação inglesa no porto do Rio de Janeiro.
"Os jogadores tiveram palavras de admiração pela beleza do Rio de Janeiro, elogiando também o cuidado e a fina conservação dos grounds que visitaram", informa a reportagem.

Crédito, Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil
A princípio, o time vinha fazer uma série de jogos na Argentina — mas já havia uma negociação para que também acontecessem algumas partidas no Brasil, quando a comitiva estivesse no caminho de volta para o Reino Unido.
"Agora, cabe-nos dar aos sportsmen cariocas uma bela notícia. Tudo nos leva a crer que, finalmente, teremos a cobiçada aventura de assistir um jogo de profissionais", adiantou o Correio da Manhã.
Vale lembrar que, à época, o futebol era totalmente amador no Brasil — os atletas tinham outras profissões e não dependiam do esporte como fonte de renda principal.
Em terras portenhas, o Exeter City jogou oito partidas — foram seis vitórias, um empate e uma derrota, para um combinado de jogadores do norte do país.
Um desses confrontos, contra o Racing Club, ficou marcado por um acontecimento um tanto bizarro: um dirigente do clube argentino entrou em campo e ameaçou o juiz com um revólver, pois queria que ele expulsasse um dos jogadores do time inglês.
Ao longo das semanas de junho e julho de 1914, começaram a ecoar na imprensa as negociações sobre os jogos que aconteceriam no Rio de Janeiro.
Inicialmente, a ideia era que o Exeter fizesse três aparições em campo. A primeira seria contra um time formado por representantes da colônia inglesa que moravam na então capital brasileira.
A segunda seria uma disputa contra um selecionado de atletas cariocas.
E a terceira envolveria um misto de jogadores do Rio de Janeiro e de São Paulo — à época, os dois maiores centros do futebol no país —, num dos primeiros rascunhos do que viria a ser a seleção brasileira.

Crédito, Exeter City Football Club
Os jornais começaram a especular quem seriam os onze escolhidos para representar o Brasil e publicaram um perfil de todos aqueles que formavam a comitiva inglesa.
Sobre Dick Pym, de 23 anos, por exemplo, o Correio da Manhã informou que ele era "reconhecido como um dos melhores keepers da Liga do Sul da Inglaterra".
"É muito jovem e tem no football um grande futuro diante de si", anteviu a publicação.
Mas um conflito de datas quase postergou por mais algum tempo a ideia de ver uma seleção brasileira em campo.
Isso porque os times dos possíveis representantes de São Paulo tinham alguns jogos agendados previamente e os dirigentes Associação Paulista de Sports Athleticos não viam possibilidades de mexer no calendário de competições disputadas entre os clubes do Estado.
"Um fato que muito contristou os sportsmen desta capital foi a não participação dos jogadores da Associação Paulista na formação dos scratches de ingleses e de brasileiros que vão enfrentar os profissionais, conforme telegrama que ontem recebeu a Liga ", lamentou a edição do Correio da Manhã de 18 de julho de 1914 — três dias antes da partida.
Mas a chegada de um cartola paulista de última hora no Rio de Janeiro deu uma reviravolta nessa decisão.
Na edição de 19 de julho, o Correio da Manhã divulgou que Aymoré Pereira Lima, tesoureiro da associação paulista, se reuniu com os dirigentes cariocas e confirmou a vinda dos atletas de São Paulo.
"Imensamente satisfeito ficará o público do Rio ao saber da nova que, de certo, se espalhará hoje célere, para alegria de ver jogar pela primeira vez em campos brasileiros contra o estrangeiro uma equipe de paulistas e cariocas", comemorou a publicação.

Crédito, Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil
Bola em campo
Como mencionado anteriormente, o primeiro jogo do Exeter City foi contra um combinado de ingleses que moravam no Rio de Janeiro — o time britânico venceu por 3 a 0.
Nos jornais, o futebol mais violento praticado pelos visitantes no Estádio das Laranjeiras (sede do Fluminense) começou a chamar atenção dos brasileiros.
"Os profissionais eram para nós mistério, como para as crianças é o uso de calças compridas. Esperávamos o jogo do Exeter City ansiosos, impacientes mesmo", relatou o Correio da Manhã de 19 de julho.
"Eles têm, de fato, no conjunto, dois ou três elementos que destoam do resto do núcleo em praticar o association . Lagan, por exemplo, o meio de campo, não é dos que mais corretamente jogam, tendo a especial predileção de pisar constantemente nos pés dos adversários para inutilizar-lhes a ação", diz a reportagem.
Na segunda partida, contra o selecionado carioca, em que o Exeter venceu por 5 a 3, os protestos contra o jogo brusco dos britânicos ficaram mais intensos.
"O Exeter City deixou-se de histórias e, não querendo que ficasse sem razão o que sobre ele disseram os jornais argentinos, lançou mão (podemos usar do aforismo, pois que a mão foi a base dessa anormalidade) de todos os recursos brutais e puníveis de que possa ser dado usar a um grupo em tal emergência", publicou o Correio da Manhã em 20 de julho.
No dia seguinte, às 15h45, ocorreu o jogo mais esperado: o confronto entre o clube inglês e o primeiro protótipo da seleção brasileira da história.
Pelo Exeter, entraram em campo Loram, Fort, Strettle, Rigby, Lagan, Harding, Holt, Whittaker, Hunter, Lovett e Goodwin.
O goleiro Pym, um dos destaques do grupo, se lesionou na Argentina, precisou ser substituído por Loram (que era amador) e apenas assistiu os três confrontos realizados no Rio de Janeiro.
Pelo Brasil, a primeira seleção foi formada por Marcos (Fluminense), Píndaro (Flamengo), Nery (Flamengo), Lagreca (Sao Bento), Rubens (Paulistano), Rolando (Botafogo), Oswaldo (Fluminense), Abelardo (Botafogo), Friedenreich (Ypiranga), Osman (América) e Xavier (Ypiranga).
Arthur Friedenreich, conhecido como El Tigre, era a grande estrela daquele período — e até hoje é reconhecido como um dos maiores da fase amadora do futebol brasileiro.

Crédito, Exeter City Football Club
No final do jogo, o placar das Laranjeiras mostrava o resultado de 2 a 0 para o Brasil, com gols de Oswaldo e Osman.
No dia seguinte, o Correio da Manhã estampou que "os brasileiros derrotaram brilhantemente os afamados profissionais do Exeter City" e que "a equipe nacional desenvolveu um jogo extraordinário, acima de todas as expectativas".
"Impossível é darmos uma pálida ideia aos nossos bondosos leitores do que foi a enorme multidão, calculada em seis mil pessoas, a vibrar de emoção ante a estupenda vitória colhida pelo time brasileiro contra os profissionais do Exeter City, carregando em triunfo os jogadores patrícios e gritando ensurde
